sábado, 22 de julho de 2017

é a felicidade, estúpida!

Li hoje uma entrevista a Sílvia Nunes, diretora da Michael Page Portugal em Lisboa, uma das maiores empresas de recrutamento do mundo. Estive uns curtos, mas eternos, segundos a decidir sobre se valia a pena o aborrecimento garantido que a leitura acarretaria. Infelizmente, a eterna idiossincrasia remete-me para a contínua envolvência com o que me faz mal e, como sempre, preparem-se os fígados e venha de lá a leitura...
Pois bem, uma entrevista a uma recrutadora deveria incidir logicamente sobre a análise às diferentes personalidades dos Cidadãos que procuram emprego. Há-os de todas as idades, sexos, etnias, níveis de formação, proveniências, etc, mas como o próprio título deixava antever, esta não era uma entrevista como as que aprendemos na escola, em que tentamos encontrar, junto dos especialistas de uma determinada área, as respostas para as dúvidas que nela temos. Isso era noutro tempo, em que o jornalismo (sim, entrevistas são componente do jornalismo) era feito por formados de excelência motivados pelo prazer de informar e jamais pelo instinto de escudeiro do corporativismo.
Que esperar então de uma entrevista cujo título de publicitação era, já por si, uma ode ao instinto "empreendedor" e individualista de uma geração que, não o sendo de forma genuína, está condenada ao vínculo com o epíteto?
Começa então a graciosa "menina" por, marcando a ferro quente a geração com a substantivação de millenials, lhes incutir a adjetivação intrínseca do desassossego. Claro que concordo... a Geração 2000 será, não só na minha opinião, a mais desassossegada de que há memória, mas tal não terá obrigatoriamente que ser entendido do ponto de vista de que querem romper com as gerações anteriores. Creio que esta insatisfação constante e este ímpeto de conquista se deve ao facto de, tão novos, terem dado já conta daquilo que lhes foi sonegado, dos sonhos que não podem sustentar e, inerentemente à condição humana, estarem eles mesmos a tentar sobreviver, batalhando, muitas das vezes contra os seus pares, por um lugar ao sol.
É então aqui que reside a falácia deste argumentário. Esta geração não é empreendedora por predisposição. Esta geração é batalhadora por necessidade, porque percebeu a transição da sociedade para uma aceitação popular da concentração de riqueza, porque as gerações que lhe antecederam se deixaram vencer pelo cansaço e aceitação da convivência com a mediocridade.
Não, não são os millenials que procuram benefícios sociais em detrimento do salário numa entrevista de emprego. Os millenials perceberam é que a luta pela melhoria dos salários é dura e incutiram-lhes, infelizmente que a ação coletiva é sinal de fraqueza, dando-lhes a entender que quando se quer muito uma coisa, é só lutar por ela com todas as forças que o sucesso será alcançado. Pois não é assim... Numa sociedade competitiva e de acumulação de rendimentos, o sucesso, tal como entendido atualmente, está apenas disponível a uma minoria. Ora, aos outros, que também apostaram tudo e se empenharam muito, resta-lhes a miséria ou dependência financeira e social.
Toda a entrevista se resume então a um autêntico regabofe de publicitação da propensão para a individualização e promessa de alvíssaras aos que nela se empenham. Toda a retórica programada adjetiva de bem sucedidas as corporações que empregam jovens empreendedores nas suas fileiras comerciais. Infelizmente, o setor produtivo fica de fora da linguagem desta gente. Perguntem a um qualquer gestor de uma linha de produção qual seria o resultado de empregar nas suas fileiras de manufatura ou montagem em série, uma carrada de jovens empreendedores e lhes incutissem o livre arbítrio como base de trabalho.
E não é o setor produtivo que sustenta a economia de um país? Não o é em França? Na Alemanha? No norte da Europa?
Que mal há na opção de um Trabalhador operário em cumprir escrupulosamente com as tarefas que lhe são incumbidas no setor produtivo nacional?
Que mal há na opção de um Trabalhador em cumprir com o que contratualizou com o seu empregador e deixar os seus sonhos para os outros dois terços de tempo que lhe restam além do trabalho?
Que mal há em ver o emprego como aquilo que verdadeiramente é, ou seja, o processo de financiamento da sua vida e dos sonhos que a sustentam?